

Por vezes ignoramos a parte espiritual de nossa natureza. Claro, também tem quem ignore a parte material, mas isso é outra estória. Ainda que se negue a espiritualidade, que aqui significa faculdades do espírito humano, não se deixa de usá-la. Como exemplo, nos detenhamos à necessidade de comunicação latente em nós. Se estivermos apaixonados, nosso primeiro ímpeto é escrever uma carta de amor, ou um e-mail, ou ainda um scrap. Se estivermos com raiva, e não controlarmos nossos impulsos, praguejaremos. Comunicar aquilo que se passa em nosso espírito atesta a existência do mesmo. Se assim não fosse, pouca diferença haveria entre uma pessoa e uma estátua, ou um robô. Pela fé cristã contemplamos que este traço de nossa espiritualidade, também nos torna semelhantes a Deus. A história do cristianismo e, porque não dizer, de todas as religiões mostra que o Todo Poderoso quer se comunicar com a humanidade. Mas qual é a Palavra que o Senhor dirige a nós? Como o Um se comunica? Qual a sua mensagem? A Palavra de Deus é Jesus Cristo. Eis a resposta para todas as perguntas. Convém a nós, não só ouvir o que nosso Senhor tem a nos dizer, mas aprendermos, com Ele, a nos comunicar.
A primeira coisa que aprendemos ao contemplarmos o falar de Deus é que precisamos achar um interlocutor, nos interessarmos por ele, para que nossa mensagem seja eficaz. Quem grita aos quatro ventos, acaba ficando sem ar. Quem joga mensagens em garrafas ao mar, nunca saberá se suas palavras têm efeito inebriante. Quem se ocupa em discursar em praças públicas pode até servir de entretenimento por algum tempo, mas logo os afazeres desmancham sua platéia. Quem fala para as paredes, cedo ou tarde, sentirá vontade de escavar janelas. A arte do discurso tem como pretensão tocar o coração daquele que ouve.
Quando faço a experiência do encontro pessoal com Deus, sinto esta necessidade de gritar prá todo mundo, como o Senhor tem se manifestado em minha vida. Mas aí é que está. Nenhum orador é digno do público que o ouve se não está disposto a ouvir também. Mesmo na evangelização, se você não aprende nada, então você está fora da dinâmica de Jesus. E esta é a segunda coisa que aprendemos ao contemplarmos o falar de Deus. Quantas vezes, nos Evangelhos, Jesus pára o que está fazendo para atender alguém lhe pede a cura; se admira com as respostas que recebe daquelas pessoas simples, tidas como infiéis; chama alguém incógnito na multidão para largar tudo e segui-lo, porque enxerga as potencialidades deste. Percebamos que se Deus nos diz algo é porque está disposto a comover seu Sagrado Coração até mesmo com nossos gemidos inexprimíveis. Triste é ver pessoas envolvidas na catequese por anos e que acham que seus catequisandos não têm nada para lhe ensinar. Ou um cara que escreve para um site pensando ser dono da verdade.
É certo que se, ao falarmos das coisas de Deus, esperando receber algo em troca com malícia, o que geramos é violência, exploração e discórdia. Mas ao acontecer a troca de experiências, a partilha, se recebermos sem esperar aquela empatia própria de espíritos que encontraram algo em comum, isso significa que a comunicação foi de fato estabelecida. Manter-se aberto ao que nossos irmãos têm a dizer torna-se, assim, um exercício espiritual que aguça os ouvidos para melhor ouvir o Verbo Divino. Estejamos prontos a dar a razão de nossa esperança (cf. 1Pd 3,15), e elevemos louvores à Deus na medida que também a recebamos de nossos interlocutores.
Por Padre Alexandre Ferreira SantosPadre Alexandre é Vigário Paroquial da Paróquia Santa Paulina em Heliópolis e colunista de formação no site da Região Episcopal Ipiranga.
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