

Aquilo que os outros enxergam ao obterem contato visual contigo não diz tudo ao seu respeito. Qualquer leitura de sua personalidade feita desse modo é meramente superficial. Tudo isso porque o que somos de verdade é invisível aos olhos. Esta parte invisível, sem a qual não podemos ser pessoas humanas é o nosso lado espiritual. Ou, se preferir, chame de espiritualidade.
Alguns traços de nosso espírito são bem aceitos. Como por exemplo, nossa abertura ao transcendente. Já outros, há quem duvide que se trate de algo realmente espiritual. O maior dos paradigmas nesse caso é a fúria. Sim, ela faz parte da natureza humana e muitas vezes, nas Sagradas Escrituras foi atribuída a Deus. Poderíamos trazer citações do Novo Testamento, mas o Antigo é ainda mais contundente nesse aspecto: “Por haverdes desencadeado a Cólera Divina é que fostes entregues aos inimigos”. (cf. Br 4, 6b). Claro que características humanas só podem ser atribuídas a Deus por analogia, não servindo para abarcar toda a sua realidade, que é intangível. A questão é: Podemos nós, meros mortais, sentirmos raiva?
Creio que a resposta seja sim. No entanto, antes de apanharmos um punhado de cordas e fazermos nossos chicotes, ou de empunharmos nossas espadas em nome das verdades que acreditamos, será necessário submeter nossos impulsos ao crivo de nossa consciência, de preferência depois de fortalecê-la com valores cristãos. Poderíamos, aqui, para corroborar essa ideia, elaborar um tratado sobre a licitude da ira, mas nos detenhamos apenas a um tipo específico: A indignação gerada diante da injustiça feita ao outro.
Ao percebermos a inércia, e mesmo a omissão, das autoridades públicas aos irmãos mais necessitados, ao vermos um jovem sendo “bullyingnado” por seus colegas de classe, ou seja, ao nos depararmos com o outro sendo rebaixado em sua dignidade humana, o pecado seria justamente não indignar-se. Sendo assim, poderíamos dizer que a indignação é irmã da compaixão, entendendo compaixão como sentir a mesma paixão (sofrimento, dor) que o outro, entende-se, também, que a indignação significa sentir que o outro ferido em sua dignidade é a humanidade inteira que foi prejudicada.
O passo de crescimento espiritual, nesse sentido, não é o de suprir a raiva gerada pela injustiça, mas o de elaborar uma estratégia inteligente e eficaz, onde a justiça prepondere sem que haja espaço para guerra. Os textos sagrados, através de seus personagens, e a Igreja, na mesma esteira, através de seus santos, mostram inúmeros modelos de homens e mulheres que ao se angustiarem diante da miséria humana deram respostas, com suas vidas, a este clamor interno por aquilo que é direito.
Porém existe uma armadilha da qual devemos escapar a todo custo: A revolta. Reclamar por reclamar. Agir sem medir as conseqüências, ferindo a dignidade do outro ainda que este o tenha feito primeiro. Voltar à carga negativa para satisfação do desejo de vingança. Isto tem muito pouco da saída de si ao encontro do outro. Nossa fé cristã nos convida a contemplar a realidade, até com certo pesar, todavia, sem perder o interesse pelo outro e sem perder de vista o ideal de perdão e reconciliação, que é Jesus Cristo.
Por Padre Alexandre Ferreira SantosPadre Alexandre é Vigário Paroquial da Paróquia Santa Paulina em Heliópolis e colunista de formação no site da Região Episcopal Ipiranga.
